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Catarina LeitÃo
Miguel Amado
Os personagens, os objectos e as paisagens
Galeria Pedro Cera, Lisboa

Do ponto de vista conceptual, a domesticação humana da Natureza define a prática de Catarina Leitão. O mundo natural artificial que caracteriza tanto o espaço público como privado das cidades contemporâneas, exemplificado por jardins urbanos ou plantas de interiores, marca os seus trabalhos elaborados ao longo desta década. Recentemente, a artista abordou esta problemática explorando a imagética de inspiração militar disseminada pela publicidade a produtos da indústria do lazer, como os utensílios próprios do campismo, patente em manuais ou revistas especializadas. Em termos formais, estas preocupações materializam-se em grupos de esculturas e, sobretudo, de desenhos. Neste caso, a autora estruturou um conjunto de personagens fisicamente tipificados, de objectos de produção massificada que estes manipulam e de paisagens desertificadas por estes povoadas que, combinados ou tratados individualmente, constituem os motivos de sucessivas séries.

One with Nature (2005), três aguarelas de grande dimensão apresentadas na exposição “Greater New York”, promovida pelo P.S.1 em 2005, ilustra a actividade de Catarina Leitão. Três figuras masculinas, cuja indumentária e equipamento as aproximam da representação de soldados dos nossos dias, protagonizam uma dada acção. A central, ligeiramente de perfil, corre, simulando uma posição de ataque; as à esquerda e à direita, respectivamente de frente e de costas, com o rosto tombado e os braços abertos mas descaídos, configuram um estado de desfalecimento. A linha e manchas suaves traçam os corpos e as suas extensões, como o capacete, os óculos, a mochila, o cinturão ou as botas; a contornar o tronco e brotando dos bolsos e da mochila, destacam-se elementos de botânica, espécie de estruturas tubulares acastanhadas e esverdeadas que evocam tanto a paleta de cores do camuflado como vegetação ou as raízes e ramos de árvores. Assim, verifica-se a fusão entre uma dimensão bélica e a qualidade meditativa associada ao género paisagístico, que traduz a crescente importância do instinto de sobrevivência decorrente da sensação de medo e desejo de segurança que distingue a nossa civilização.

Em “Os personagens, os objectos e as paisagens”, Catarina Leitão mostra três núcleos de desenhos. Como o título da exposição indica, este projecto retoma e desenvolve os assuntos que ocuparam a artista nos últimos anos, sistematizando os motivos que compõem a sua produção. Assim, as paisagens desoladas remetem para uma Natureza subjugada à vontade humana, à qual aludem os papéis desempenhados pelos personagens de aparência guerreira, numa relação mediada por objectos de consumo massificado. Refiram-se, por exemplo, os cenários pós-apocalípticos, a pluralidade de actos realizados pelos sujeitos ou os falsos animais, desde veados a patos, utilizados como chamariz em caçadas. Porém, note-se a introdução de um novo registo, nomeadamente nos trabalhos centrados na interacção entre os personagens e as paisagens: os pés surgem descalços e as estruturas tubulares autonomizaram-se, ganhando volume e exprimindo um sentido lúdico. Envolvendo as personagens, agora mais desprotegidas, as paisagens assumem um carácter ameaçador até aqui desconhecido, chamando a atenção para a vulnerabilidade humana perante a força da Natureza.
 
 




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