| CATARINA LEITÃO «Natureza Domesticada» Ana Ruivo Expresso, Lisboa, 20 de Julho, 2002 Ida ao campo A Natureza revisitada no CAM em versões domésticas Se Marcovaldo entrasse nesta sala pelas linhas de Italo Calvino, estou certa que o faria de bicicleta, carregando na bagageira um vaso com uma planta quase tornada árvore. Sentar-se-ia entre colunas de betão olhando a nuvem azul, acolchoada, na esperança de a ver mudar de cor; ajeitaria o vaso colocando-o mesmo por debaixo dela e sorriria por ver uma chuva grossa reflectida na poça de espelhos. Se Marcovaldo aqui estivesse taparia os focos de luz, deitar-se-ia no Colchão Portátil, fecharia os olhos tentando sentir o cheiro inexistente do musgo e adormeceria antes de ver passar, ao longe, pela Floresta Imaculada, o Robin dos Bosques e o Peter Pan carregando um saco de Compras. Neste paraíso artificial criado por Catarina Leitão é possível lembrar a Natureza. Não a Natureza como paisagem intocada, mas uma Natureza em segunda mão, reciclada e reciclável, gerada na distância entre o referente primordial e o olhar que sobre ele foi sendo projectado, uma Natureza em duplicado, um simulacro tendencialmente perfeito de um paradigma em dissolução, uma Natureza «pret-à-porter» pensada como resposta às exigências de conforto da sociedade de consumo. Nos lugares que constrói como se fossem peças de um puzzle tridimensional habitado apenas pelo olhar, sob o impedimento do toque, a artista evoca a dupla relação de desejo e repúdio que os habitantes da cidade estabelecem com a paisagem natural. Imagem distante de um quotidiano marcado pela voragem do tempo, ela institui outros ritmos na cidade. Espartilhada entre estradas, regrada em jardins projectados no meio dos prédios, suspensa em vasos plastificados nas varandas ou em jarras decorativamente distribuídas pelo interior das casas, a «Natureza Domesticada» cria um território ambíguo, uma espécie de zona franca do olhar, uma contra-cidade parcelar, surgida nos interstícios do betão e do asfalto, mesclando tempos e espaços distintos. Visualmente manipulada, a Natureza tem então um efeito tranquilizador. Envolve, alivia a sensação de deslocamento, apazigua a vontade de evasão e torna-se álibi da inacção. Catarina Leitão amplia-lhe este sentido. Redesenha-a, recorta-a em madeira e esferovite, reveste-a de tecidos e alcatifas, absorvendo e reformulando arquétipos veiculados pela literatura, pintura e cinema. Fabrica todo um mundo de improváveis imagens e objectos que se fundem e (de)compõem como fragmentos de uma Natureza inverosímil que cresce em casulos, no resguardo de um casaco, no interior de sapatos, por debaixo de mesas ou na clausura de biombos, dentro de sacos de compras, em banheiras, lavatórios ou cestos da roupa suja. E porque a domesticação impõe regras e limites, os objectos aqui presentes surgem seccionados (Paisagem), reduzidos ou aumentados na sua escala (como em Jardim Privado e Selva Confortável), adensando a ilusória imagem de protecção e conforto nas cores e nos materiais utilizados. Mas sendo a caminhada ao ar livre um elemento dissonante a esta progressiva domesticação da Natureza (e do Homem), «a proposta que fica a faltar fazer», refere Leonor Nazaré no texto do catálogo, «é então a de romper as pregas da crisálida e querer vivamente o curto tempo desta vida de breves borboletas para saber a que cheira exactamente um bosque». Eu sei que Marcovaldo não entrou nesta sala enquanto fui ao campo mas, não sei porquê, não consigo deixar de me sentir incomodada pelo olhar daquele homem franzino que por detrás da Treescape me investiga a mochila tentando adivinhar se nela carrego algum cogumelo... |
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