| Uma Casa para o Teu Corpo Luísa Soares de Oliveira Público, 26 de Maio de 2001 Catarina Leitão inaugura o "project room" do Sintra Museu de Arte Moderna. O trabalho que apresenta continua a sua pesquisa em redor dos lugares possíveis para um corpo ausente. A par da mostra sobre o núcleo surrealista da colecção Berardo, que já decorre há tempos, e da sua colecção permanente submetida periodicamente a novas montagens, o Sintra Museu de Arte Moderna inaugurou há pouco um novo espaço de apresentação de artistas. Situado no terceiro andar, num átrio difícil em termos de capacidades expositivas, a sala destina-se exclusivamente a projectos de jovens autores. Coube a Catarina Leitão abrir esta nova série de exposições, com um projecto que intitulou "A.R.D. - Artificial Retreat Devices". Nascida em 1970, com uma licenciatura na ESBAL e um mestrado feito em Nova Iorque, Catarina Leitão participou em várias exposições individuais e colectivas, sendo de destacar, conforme o currículo distribuído, a sua participação no programa "The Artists in the Market Place", organizado pelo Bronx Museum of the Arts, em 1996. Em Sintra, a peça que apresenta consiste numa série de tendas desmontáveis dispostas sobre um tapete de relva artificial verde, e dos desenhos que obviamente lhes serviram de modelo, completados com outros de objectos não expostos. Cada tenda, embora claramente reconhecível como tal, está pintada de uma cor diferente consoante o seu uso, e pode, ou não, estar provida de mangas, por exemplo. Há dispositivos sonoros no interior de cada uma que recriam determinado ambiente. Pode ouvir-se água a correr, por exemplo, ou rãs que coaxam, ou pássaros que cantam. Cada tenda é uma casa, e cada casa um mundo. Catarina Leitão aborda assim o tema desta casa primordial que é a tenda. Por vezes, a tenda, porque é sempre pequena e apenas habitável por uma pessoa, transforma-se em vestuário, em casaco de mangas onde qualquer um se pode esconder. O título da peça - "Artificial Retreat Devices" evoca, aliás, esta ideia de refúgio, ao que o facto de ser apresentada em Sintra, ela própria um refúgio romântico, acrescenta sentido. Na sala, vazia na altura em que visitámos a exposição, um cartaz convida os espectadores a entrar nas tendas. Ou seja, há uma ausência de um corpo que também é romântica e que, embora as diferenças sejam muitas, aproxima o conceito do trabalho de Leitão do de um escultor como Rui Chafes, por exemplo. A peça, na trivialidade dos materiais que utiliza, não tem utilidade prática - não serve para acampar, para viver. Apenas para recriar, através da cor, da intimidade e do som, um mundo artificial que não existe na cidade. Catarina Leitão aborda assim de modo implícito diversas questões tratadas pela arte contemporânea mais recente: a questão do ambiente, da realidade política e social. Mas fá-lo de um modo que abdica do carácter panfletário ou factual para inserir o seu trabalho num contexto mais genérico, ligado à a plasticidade dos materiais. À constatação da perda do paraíso perdido, que é o de uma natureza ideal, impoluta mas, ao mesmo tempo, irrepresentável a não ser através do pigmento com que pinta o interior de cada tenda, substitui uma camuflagem, no sentido mais literal da palavra. Camuflar e também pintar. Nesta série, se o motivo do camuflado não aparece de forma explícita, a recriação da natureza que esse padrão textil pretende obter - e conseguir - está sistematicamente em questão. E mais. Pois não é o espaço do museu, diga-se o que se disser, um lugar isolado, perfeito, longe do bulício do dia-a-dia, o lugar da arte? |
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