Natureza Domesticada (Tamed Nature)
Catarina Leitão
Na cidade, a natureza, manifesta-se em parques, jardins,
caixas de cimento com plantas, árvores que nascem
de orifícios nos passeios, relvados e recriações
de jardins dentro de edifícios públicos.
Em casa, a "natureza" aparece em pequenas
miniaturas de vasos com plantas, plantas nos parapeitos
das janelas e jarras com flores. Porque é que
se constroem estes pedaços de natureza? Será
que funcionam como elementos decorativos da cidade?
Ou funcionam como pequenos oásis na paisagem
urbana?
Encontramos as primeiras referências a jardins
construídos no mito dos "Jardins Suspensos
da Babilónia", uma das sete maravilhas do
mundo antigo. O Rei da Babilónia, para satisfazer
a sua saudosa esposa, resolveu construir uma "recriação
da sua terra natal". Construiu uma montanha artificial
com jardins no topo e colinas fabricadas que cobriu
com várias espécies de árvores:
um paraíso fabricado pela mão do homem.
Hoje em dia, continuamos a associar jardins com paraíso
e a ideia de recuperação de um ideal perdido.
Nos parques da cidade, jardins, e plantas de casa, os
elementos naturais são manipulados de tal maneira
que o produto final é uma "natureza artificial".
Estes "objectos" artificiais feitos de "objectos"
naturais, têm o objectivo de representar situações
da natureza, funcionam como exibição e
criam um espaço para apreciação
em público ou e em privado.
A experiência do jardim contemporâneo
privilegia o aspecto visual. Os jardins na cidade são
projectados como paisagens, seguem modelos de representação
pictórica da pintura paisagista. São criados
para gerar pontos de vista, oferecem panoramas, imitando
"cenas" do natural para contemplação
à distancia. Na maior parte destes locais, o
público nem pode tocar ou pisar em nada, sendo
reprimida qualquer tentativa de interacção
física, com medo de que a falta de cuidado estrague
o jardim. Quando não são impostas restrições,
muitas vezes nós próprios limitamos o
nosso contacto com a natureza: Quantas vezes passeamos
de carro por paisagens maravilhosas e nem sequer saímos
para o ar livre? A necessidade de contacto com a natureza
é somente visual?
No passado, o Homem tinha que se proteger das ameaças
do meio selvagem. Hoje, as nossas paisagens construídas
têm de ser tratadas e protegidas das agressões
do meio urbano. A sociedade tem vindo a criar inúmeras
regras para proteger a natureza. Para fechar este círculo,
a natureza na cidade ajuda-nos a tranquilizar o stress
e ansiedade da vida moderna. A presença da natureza,
ainda que artificial, lembra-nos a nosso primeiro habitat.
A sua função no meio urbano alivia a sensação
de deslocamento através da simulação
de um paraíso perdido.
Este projecto explora a relação das
pessoas que vivem em meios urbanos com a natureza. A
natureza na cidade torna-se um bem de consumo. A "natureza"
que apreciamos está demasiado distante da experiência
da natureza original, selvagem, perdida. As peças
"natureza artificial/mobília", nesta
instalação, são fantasias que investigam
a relação entre os nossos impulsos consumistas,
a necessidade de conforto físico e a necessidade
de estar perto da natureza.
Catarina Leitão, 2002
in "Natureza Domesticada (Tamed Nature)",
CAMJAP - Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa,
Julho de 2002.
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