De Natura
Leonor Nazaré
"Do 110o andar do World Trade Center, ver Manhatan",
propõe Michel de Certeau no início do
capítulo "Caminhos pela cidade"1 ,
um livro em que faz aproximações antropológicas
à tecitura dos movimentos urbanos. Catarina Leitão
estava providencialmente em Paris no dia em que isto
deixou de ser possível. Em viagem, portanto;
fora da cidade em que habita. A viagem é hoje
uma fórmula mais ou menos organizada de deslocação
no espaço do planeta; corresponde, no mundo dito
civilizado, a passagens previsíveis por vários
não-lugares 2 e a peregrinações
a locais investidos de valor pela divulgação
turística, pelos imaginários históricos
estabelecidos e , nalguns casos, pela fantasia de um
usufruto da natureza. O citadino sonha com a fuga: sair
da sua cidade em direcção a outras cidades
ou em direcção ao campo, à montanha,
à praia; em suma, à procura de outras
paisagens.
Mas como diz Georges Pérec, com alguma mordacidade
e pessimismo em relação às fantasias
campestres do habitante da cidade, para a maioria das
pessoas que conhece " O campo é um espaço
agradável que envolve uma segunda residência
que ladeia uma porção das auto-estradas
que eles tomam à sexta feira à noite,
quando lá vão, e das quais, no domingo,
a seguir ao almoço, com uma certa dose de coragem,
vão percorrer alguns metros antes de voltar à
cidade onde, durante o resto da semana, farão
a apologia do regresso à natureza." 3
A paisagem, como conceito, é uma invenção
cultural preenchida por um olhar feito das artes que
o influenciaram, a literatura, a pintura, o cinema e
pelos mass media, como quis demonstrar Alain Roger no
seu Court Traité du Paysage. 4 Na descrição
que faz deste processo e da história das civilizações
que (não) conheceram a palavra, a representação
pictórica ou literária, ou a criação
intencional, por exemplo, de jardins, tornam-se claras
três coisas: primeira, a importância, no
ocidente, de dois grandes momentos, a Renascença
e os seus jardins geométricos e o século
XVIII com a descoberta de novas paisagens de montanha,
de mar , de deserto, na senda do famoso sentimento do
"sublime". Segunda, a noção
de que a ideia de paisagem escapa em geral àqueles
que vivem mais próximo das paisagens idílicas
e sonhadas pelo habitante da cidade, como os camponeses.
Constata-se então que a beleza duma paisagem
é avaliada por aqueles em função
de um dispositivo estético e por estes em função
de um dispositivo utilitário ( uma bela ceara
é a que dará muito trigo). Por extensão,
também as noções ecológicas
de meio ambiente devem ser dissociadas das de paisagem.
Terceira: com o aparecimento da perspectiva em pintura,
o fundo de paisagem inscreve-se nesse novo espaço
e a laicização da sua abordagem liberta-o
da simbolização religiosa. A pintura integra
a paisagem e devolve-a como uma janela aberta sobre
o mundo lá fora e através de espelhos
e janelas pintadas desmultiplica ainda o cruzamento
de espaços exteriores e interiores, tornando
muito imbricada a relação com o real e
a arte. Percebe-se finalmente quanto a projecção
de um olhar informado pela arte é eficaz na modelação
de um olhar sobre os espaços naturais e, por
maioria de razão, na sua construção
e apropriação a vários níveis.Chegados
a este ponto estamos provavelmente dispostos a vacilar
perante a proposta de pensar numa natureza natural por
oposição a uma natureza domesticada. E
no entanto teremos que voltar a opô-las...para
sobreviver à morte do mito, à perca desse
Éden onde uma árvore da vida e outra do
conhecimento nos terão confundido e retirado
o direito a um olhar ingénuo. É do olhar
que se trata, quando a natureza a avaliar é um
espaço onde o Homem não tocou. O ponto
de vista e os acessos ao lugar, por um lado, as imagens
e fantasias nele projectados por quem olha, por outro
lado, definem o olhar.
Nesta exposição, C.L. circunscreve o
problema da paisagem à circunstância mais
específica da recriação de formas
artificiais da natureza dentro da cidade, mas trazendo
para dentro dessa circunscrição as representações
alargadas do conceito de paisagem evocadas e a questão
central do olhar: " A experiência do jardim
contemporâneo privilegia o aspecto visual. Os
jardins (...) seguem modelos de representação
pictórica da pintura paisagista. São criados
para gerar pontos de vista (...) à distância.
O público não pode tocar ou pisar nada,
sendo reprimida qualquer tentativa de interacção
física." ( C.L., texto neste catálogo).
É a partir desse interdito de envolvimento físico
que vale a pena pensar agora este trabalho.
Numa exposição realizada em 2001 no Museu
de Arte Contemporânea de Sintra 5, C. L. expôs
tendas nas quais o visitante era convidado a entrar
e a deitar-se para ouvir, ver, cheirar cada proposta
de evasão ( "Bed tent", "Lazydress
tent", "Forest tent", "Caouflage
tent", "Desert tent", etc.) Não
é o caso nesta exposição. Nenhum
destes lugares artificiais pode ser habitado a não
ser pelo olhar.
Por entre as tendas desenhadas e construídas
havia duas "Bed tents" explícitas.
A cama volta a surgir nesta exposição:
peça quase sem volume, tendo por única
espessura relevante uma pequena almofada. Convite de
cama ou saco-cama camuflado para ver de cima e imaginar
nela um sono com o céu por tecto em vez de tenda,
tem a particularidade de evocar justamente a camuflagem
no contexto duma desprotecção. Ao lado,
uma peça com um recorte de céu a pairar
sobre um pedaço de floresta ("Paisagem")
designa essa ambígua função protectora.
O céu protege?
O tecido camuflado surge na guerra para esconder o
soldado tornando-o parecido com a natureza. Vistos de
cima, os soldados seriam confundidos com a floresta,
camaleónicos. Ir buscar esse tecido para referir
a própria ideia de imitação da
natureza e imiscuí-lo em todos os comentários
das suas recriações artificiais surge
também nesta exposição como forma
de referir uma natureza que se esconde nas cidades,
recriada como uma fantasia num espartilho. Por entre
o asfalto ou o cimento, a natureza existe sem espaço.
A fatia de céu inclinada e espessa de "Paisagem"
é um pedaço recortado nele, com princípio,
meio e fim. A domesticação do céu
consiste em atribuir-lhe uma finitude, em tornar a sua
escala inverosímil, dominável com as mãos
e o corpo. Com ela se desconstrói o medo de que
o céu nos espreite ou se desfaz a ilusão
de que nos protege. Perante a realidade (da guerra,
do terrorismo) de que o céu pode agredir e a
realidade planetária de que pode poluir, ser
poluído, perfurado, os esconderijos protectores
deixam cair as suas máscaras. É isso a
globalização: deixar de ter lugares preservados.
O jardim ou os excertos de natureza que a cidade recria
surgem então como simulacros: pedaços
de camuflado. E na televisão ( aqui incluída
na peça "Ida ao campo"), lugar que
contém o mundo inteiro, ver a natureza é
igual a não vê-la realmente (porque não
se toca, não se pisa, não se cheira),
vendo-a, no entanto desaparecer tomando consciência
da agressão ecológica generalizada. Alain
Roger aplica-se a separar bem as águas entre
os conceitos ecológicos de meio ambiente e o
conceito (sempre estético, a seu entender), de
paisagem; mas é justamente na confluência
dos dois que deve ser lida a domesticação
a que se refere C.L., porque no seu trabalho paisagem
se confunde com ordenamento do território, com
lazer, com preocupação ecológica,
com experiência íntima...etc. A natureza
na cidade não é só lugar (in)desejável,
é ela própria vítima a proteger
do ambiente que a envolve, não é só
negação da natureza, porque afinal "alivia
a sensação de deslocamento", não
é só proposta de desfrute desinteressado,
é também proposta de consumo, não
é espontânea é fabricada, é
desejada mas incapaz de satisfazer plenamente.O citadino
está cercado pelas suas próprias representações
da natureza. A ida ao campo é investida duma
procura de protecção psicológica
face à fragmentação das identidades
que a cidade impõe, na esperança de aí
reencontrar uma identidade verdadeira, uma autenticidade
perdida. Mas tudo se torna difícil e tanto mais
frustrante quanto os próprios camponeses importam
em contínuo sinais urbanos do progresso para
o seu território, perturbando profundamente as
aspirações defensivas dos citadinos 6.
Ou seja, já nem a fuga da cidade oferece garantias
duma evasão total. Reenvios globalizantes da
civilização a si própria constroem
um espaço elástico (que controla os afastamentos
e os volta a recolher) um pouco por todo o lado. A diferentes
níveis de realidade, essa condição
faz com que os próprios excertos de natureza
na cidade possam parecer cada vez mais naturais, porque
misturados, como fora dela; faz com que sejam, por isso,
cada vez melhores simulacros.
Um célebre caminhante do século passado.
Henri David Thoreau(1817/1862), escreveu , para falar
dos seus passeios: "Como é natural, ao caminhar
dirigimo-nos para os campos e os bosques; o que seria
de nós se apenas passeássemos em jardins
e avenidas ? Seitas de filósofos houve que sentiram
necessidade, por não irem ao bosque, de trazê-lo
para junto de si. Plantaram sebes e alamedas de plátanos
e sob colunatas expostas ao ar deram largas às
suas subsidiales ambulationes."7 Passagens como
esta dão-nos a medida da distância a que
nos encontramos no mundo actual, da avaliação
que era feita da natureza na cidade. "Esse pobre
simulacro de Natureza e Arte a que dou o nome de meu
jardim"- diz Thoreau. 8
Caixas de cimento com plantas, árvores que nascem
de orifícios nos passeios, vasos, jarras, parapeitos.
C.L. evoca também os lugares mais estreitos,
os recipientes mais pequenos, mesmo os que se compram
e se trazem em sacos para casa. Um mundo caseiro de
objectos prolifera nas instalações e nos
desenhos. Recipientes ligados à água
banheira baixa, de pés curtos, sob uma longa
nuvem azul, com lago e troncos dentro; recipiente de
pano com água e pedaço verde dentro; lavatório
no mesmo cinzento do pano também com água,
donde saem três pequenos troncos. Objectos ligados
ao mobiliário: cadeira de pernas muito baixas
estofada a camuflado ( desenho) e sofá verde
(objecto em "Ida ao Campo"); cubo ou módulo
para transportar natureza, assimilável a um monitor
de Televisão com recortes florestais dentro,
incluindo um pássaro de asas abertas (desenho)
ou cubo tridimensional diante do sofá, também
preenchido de rolos e pedaços (instalação
escultórica); mesa, objecto de madeira e alcatifa-
guardando sob si rolos (troncos) vigorosamente entrelaçados;
cama; ventoinha à dimensão duma
árvore ou mesmo maior, aparece como um ser estranho
de cimento ou metal plantado na floresta (desenho),
qual utensílio surreal. Outro objecto afirma
a vocação lúdica que muitos exprimem
de comentário bem humorado uma caixa carrinho
de rodas, brinquedo de madeira dentro do qual se podem
empurrar duas árvores esquemáticas, uma
paisagem miniatura transportável; uma tenda redonda
cuja abóbada cinzenta cobre uma floresta achatando
o que nela tenta crescer em altura (desenho).
E finalmente os sacos. Sacos de feltro com pedaços
de "terra" e "relva" dentro ( citações
do tecido camuflado em recortes proliferantes em toda
a exposição) com rolos/troncos que deles
transbordam. Ao lado, uma manta azul dobrada, como retalho
domesticado de céu. Num desenho, um saco mochila
deixa ver o forro verde e duma bolsa saem troncos de
madeira despidos, arqueados; proposta de que leve a
natureza às costas.
São, em geral, assumidas duas coisas, nesta
domesticação que a cidade faz da natureza:
a redução da escala para facilidade de
consumo e uma relação táctil e
corporal transformada em jogo controlado, com exclusão
dos sentidos que não a visão, do imprevisível
e da deambulação. Um recorte verde delimita
o lugar de cada pedaço de "natureza artificial"
em que se transforma cada peça. A dimensão
das coisas comenta-as intensivamente: a miniatura, a
redução quantitativa como em "Acessório",
em que refere a estrutura que enclausura as árvores
nas avenidas, fazendo, neste trabalho, com que nela
exista muito pouco de uma árvore; ou o agigantamento,
cuja mais eloquente expressão se encontra no
enorme casaco cinzento. Uma vida pulula dentro do seu
forro verde: excrecências, desdobragens e apêndices;
um banco também verde, mais rolos e pedaços
de camuflado pelo chão e folhas verdes a espreitar
de dentro de um par de enormes sapatos. Abrigo tropical
imobilizado numa roupa/casa suspensa do tecto que encontra
num desenho uma figura algo congénere: camisola
ou vestido enfiada em tronco de árvore de cujo
decote escapa uma folha/lenço verde. A roupagem
da árvore, termo normalmente usado para designar
as folhas é, neste caso, literal e de tecido.
Este é um trabalho que nos relembra uma instalação
feita em 1999 no Hunter College de NY como tese de mestrado:
"The Body in the Garment in the Furniture in the
Room". Casacos brancos armados e praticamente tão
altos quanto a sala em que foram expostos, eram forrados
de cor e iluminados por dentro e acolhiam o visitante
com bancos, cama ou plataforma. Eram habitáveis,
alguns tinham som. Num texto explicativo, C.L. dissertava
acerca da roupa e dos espaços íntimos
na sua qualidade de contentores, de segunda pele, de
superfícies de representação do
eu. Falava da mobília, da mediação
que realiza entre a roupa e a arquitectura, e dos objectos
supostamente pessoais que reflectem gostos estandartizados
e conformistas. Referia-se à experiência
privada do corpo como contentor, à consciência
da intimidade e de um corpo fechado e solitário
em frente a ecrãs (televisão, computador).
Marc Augé não falou já da hipótese
duma etnologia da solidão? 9
Referia-se também à experiência
de ocupar a pele interior de um sítio, com cor,
som, dimensões, e de assim metaforizar a percepção
da identidade. Definia um lugar como uma bolha móvel
que transportamos à volta do corpo e esta exposição
como sendo acerca de um lugar que existe entre o corpo,
o vestuário, a mobília e o quarto. Um
lugar cheio de histórias e memória, profundidade,
presente, passado e futuro. "Natureza Domesticada"
é um trabalho com pontos de contacto e continuidade
em relação a essa: não só
através de "Jardim Privado", a peça
com o casaco, mas através da ideia de que as
sucessivas camadas que nos envolvem e protegem do exterior
podem também reter-nos e ludibriar-nos nas suas
pregas e camadas. Volto, a propósito, a recuperar
Georges Pérec: "Vivemos algures, num país,
numa cidade desse país, num bairro dessa cidade,
numa rua desse bairro, num prédio dessa rua,
num apartamento desse prédio. Há muito
que deveríamos ter adquirido o hábito
de nos deslocarmos, livremente, sem que isso nos custe.
Mas não o fizemos (...) Depois foi demasiado
tarde: estávamos aprisionados nas dobras do lugar."
10
É da iniciativa e do gosto genuínos pela
caminhada, pela deslocação ao ar livre
com participação de todos os sentidos,
que cresce alguma da dissonância com a domesticação
da natureza na cidade. E se nos lugares de passagem,
em trânsito, nos não-lugares contemporâneos
11a solidão nos emoldura os projectos, é
com certeza na mobilidade corporal, aquela que os pés,
os sapatos gigantes desta exposição nos
dão, aquela que não depende das máquinas
que nos deslocam, ("Quantas vezes passeamos de
carro por paisagens maravilhosas e nem sequer saímos..."-
diz C.L. no seu texto) que uma verdadeira exigência
de natureza se instala. Dentro da cidade, à medida
do que é possível aos Homens e a essa
Natureza. Fora da cidade à medida do que a Natureza
for e do que "artística" ou ecologicamente
quisermos fazer dela. Diante da imagem, televisão,
filme, fotografia, imagem electrónica, com a
obrigação de ter presente que as coisas
são sem volume e sem caminhos: a "Floresta
Imaculada" desta exposição é
achatada contra a parede, tal como algumas nuvens. O
espelho sob a nuvem em "Paisagem" aplana as
imagens do sítio e de quem espreite. O camuflado
é um tecido liso que imita vegetação
e elevações de terra.
A proposta que fica a faltar fazer é então
a de romper as pregas da crisálida e querer vivamente
o curto tempo desta vida de breves borboletas para saber
a que cheira exactamente um bosque.
Leonor Nazaré
Lisboa, 22 de MAio de 2002
in "Natureza Domesticada (Tamed Nature)",
CAMJAP - Fundação
Calouste Gulbenkian, Lisboa, Julho de 2002.
Notes:
1
Michel de Certeau, A Invenção do Quotidiano, Artes
de Fazer [Brazilian translation], Vozes, 1990.
2 In the sense used by Marc Augé in Non-Lieux. Introduction à une
anthropologie de la surmodernité, Seuil, 1992.
3 Georges Perec, Espèces d'Espaces [1974], Galilée,
1997, p. 93.
4 Alain Roger, Court Traité du Paysage, Gallimard, 1997.
5 Artificial Retreat Devices.
6 See Michel Conans article "L'invention des identités
perdues", part of Cinq propositions pour une théorie
du paysage, Champ Vallon, 1994, Seyssel, p. 45.
7 Henry David Thoreau, "Walking".
8 Thoreau, ibidem.
9 Marc Augé, ibidem, p. 149.
10 Georges Perec, ibidem, p. 97.v
11 For Marc Augé, non-places are airports, public transport,
hotel chains,large stores...
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